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Como será o mundo pós-Covid-19? Como estarão as relações pessoais, trabalhistas, ambientais? Como será o comportamento econômico, político e social quando tudo voltar ao “normal”? Podemos ser mais otimistas ou pessimistas em se tratando de prever o que está por vir. A maioria acredita que estamos próximos de um futuro mais humano, apesar de desafiador. Nesse novo contexto, quem se adaptar melhor às novas regras de convivência e de mercado irá se destacar e colher os melhores resultados de todo esse aprendizado: isolamento social, solidariedade, administração financeira, home-office… Historicamente, evoluímos nas dificuldades, superamos limites e nos tornamos melhores.

Enquanto tudo isso não passa, podemos fazer uma autoanálise do que priorizamos em nossas vidas até agora: saúde, educação, família, respeito, natureza, relações humanas, segurança, dinheiro… Questões que ficavam em segundo plano, oriundas da correria do dia a dia, agora podem ser refletidas com calma. Não dá mais para estar cego ao que fingíamos não ver. Saltam aos nossos olhos muitas carências do que constatamos ser imprescindíveis: as relações humanas, o respeito à vida do próximo, a empatia. Foi preciso isolar-se socialmente e perder, ainda que momentaneamente, estabilidade emocional e econômica para sentirmos na pele o que grande parte da população, indefinidamente, vive.

Infelizmente, a população menos privilegiada, a qual sempre sofreu preconceito, exclusão social e má distribuição de renda, será a mais afetada pelos efeitos da pandemia, o que agravará, ainda mais, essas desigualdades socioeconômicas. Nesse momento, pessoas que tinham uma vida confortável viram-se sem o básico, o que as fez vivenciar a dor de tantos milhões que sempre viveram nessas condições nefastas. Mesmo que a pandemia seja subjugada, muitos não conseguirão reabrir suas empresas ou recuperar seus empregos, o que tornará o cenário mundial ainda mais miserável. Precisamos, mais do que nunca, olhar uns pelos outros. Esse será o grande legado da Covid-19.

Até que se encontre uma vacina eficaz e acessível a todos, não há uma expectativa para que tudo volte ao “normal”. Durante esse período, estaremos assombrados por essa doença, que persiste no tempo e ordena: isolamento e flexibilidade, isolamento e flexibilidade, como um tique-taque a ressoar no cotidiano. E, como se não bastasse toda essa angústia, sofremos as consequências da impunidade e da corrupção, as quais inviabilizam os investimentos em saúde, saneamento básico, educação/pesquisa, segurança pública, entre outros. A atual conjuntura poderia ser diferente se tivéssemos feito o “dever de casa”. E muito embora tenhamos começado o enfrentamento da doença com antecedência e maturidade, nos perdemos no meio do caminho graças à vaidade e à disputa de poder.

Do jeito que as coisas andam, pode-se dizer que a maioria terá a doença e o nosso sistema de saúde entrará em colapso, exatamente o que temos tentado evitar com tantas privações. Mas é devido a essa certeza que devemos reivindicar planejamento, sabedoria, paciência e investimento do Poder Público. É preciso sobreviver à doença, no entanto é preciso sobreviver à fome. Será que o governo, os gigantes da economia e a sociedade estão fazendo todo o possível para oferecer um pouco a quem tanto necessita?

Diante do exposto, prefiro compor o grupo de otimistas e acreditar que, ao final dessa pandemia, viveremos num mundo mais humano. Onde respeito, amor, aceitação e solidariedade seja a base não só das famílias, mas de toda a sociedade. Onde o SER valha mais que o TER e o PARECER TER. Onde todos tenham ao menos o básico. Onde o caráter e a consciência tranquila sejam o maior patrimônio do ser humano.

Joaquim Cândido é advogado trabalhista. É presidente da Comissão de Direito Sindical da OAB/GO e vice-presidente da Associação Goiana dos Advogados Trabalhistas (Agatra).

Veja mais em: https://www.rotajuridica.com.br/artigos/o-grande-legado-da-covid-19/

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